sexta-feira, 4 de abril de 2008

O catador de limões


Todos os dias acordava cedo, o sol mal despontara, tomava café e seguia com o pai para o limoal, e com seu cesto de vime colhia os frutos maduros e vistosos.
Certo dia ao lavar as mãos antes do almoço notara que elas estavam ressequidas e até rachadas, ao olhar mais de perto percebeu que as marquinhas (digitais) que tinha nos dedos estavam sumindo...
Ao voltar para o limoal comentou abismado com o pai que lhe disse:
- ahh fio, isso é por causo do azedume dos limão que queima a pele e acaba desfazendo as ondinha dos dedo.
E ele agora preocupado disse:
- Mais pai, num são essas ondinhas que mostram que eu sou eu mesmo?
O pai responde:
- É sim fio, mai nóis vive disso.
Ele(que particularmente gostava de limão) achava o azedinho gostoso, e era o que melhor matava a sede nos dias quentes, mas sua casca grossa sendo altamente ácida, acabaria por apagar sua identidade.
O menino pensou um pouco antes de ir dormir e logo já sabia o que fazer...
Na manhã seguinte apareceu na colheita com dois sacos plásticos envoltos nas mãos, agora ele poderia trabalhar e continuar a ter suas “ondinhas” nos dedos. ;)

7 comentários:

Michel disse...

Talvez o mais importante da vida seja nunca deixar o tempo apagar a nossa identidade.Pena que as vezes não apenas sacos plásticos não sirvam...

Denise Machado disse...

Menina!
Cada vez que venho gosto mais.
Bj.

Gerlane disse...

Interessante a simplicidade expressa no ponto de vista de algumas pessoas. Às vezes, penso, que mesmo que percam as digitais, conseguem ser mais felizes que outras que possuem o conhecimento intelectual de forma mais ampla.

Beijos pra ti!

Edgard disse...

As distâncias dentre as duas questões “limoal e digital” estão escancaradas no contexto social.
Portanto comparar a vida rural (braçal) e a vida urbana (modernidade) como identidade e não-identidade são os pontos extremos duma linha. Já adorei o texto só por isso.rsrs
Um menino do campo descobriu a identidade nos dedos (isso é lindo su, é poesia) e preferiu arrumar um jeito de mantê-la antes q a acidez do limão acabasse com ela. Temos q nos preservar colocando sacos em nossas mãos diariamente para que o trabalho ou qualquer outra coisa do mundo Não nos faça falsas identidades. Identifique-se, quem é vc Edgard? Sou um profundo admirador dessa menina a cada texto. YAYA,10! beijos

Plum disse...

Há sempre uma forma de continuar a fazer o que se gosta sem deixarmos de ser quem somos!***

Yuri de Avila disse...

Pô não li o post de todo mundo pq estou sem tempo, entao não sei se ja foi mencionado, a relação entre identidade e as ações(q no caso é o serviço braçal) acredito ser q não devemos deixar nossas ações dizerem quem somos e tirar nossas identidades, somos muitos mais q ações e gestos, fazemos o q é necessario para seguir em frente ficar bem consigo mesmo. Acho q viajei na parada. Mas Su adorei o texto.

Eduardo disse...

Muito bom o conto, gostei muito, devemos sim trabalhar, mas nunca perder a nossa identidade...